Considerando que toda guerra é econômica, considerando que a guerra na Ucrânia sempre foi (e ainda é) da OTAN contra a Rússia, considerando que a Rússia ganhou a guerra, podemos dizer que a bagunça na economia global, lançado por Trump, é uma tentativa atabalhoada de recomeço de um império em declínio.
Em um cenário pós-conflito, como este da derrota da OTAN, a tentação por autossuficiência é compreensível. No entanto, a economia globalizada do século XXI não se compara à era do protecionismo do século XX.
Em um discurso carregado de uma falsa retórica nacionalista, o presidente Donald Trump anunciou, no dia 2 de abril de 2025, uma série de tarifas recíprocas sobre importações de diversos países, declarando-o o "Dia da Libertação" da indústria norte-americana.
"Este é o dia em que o destino dos EUA foi recuperado", afirmou Trump, comparando as medidas a uma "declaração de independência econômica".
No entanto, um pouco de honestidade na análise nos leva a enxergar que a estratégia de Trump pode repetir erros históricos, especialmente em um cenário geopolítico já fragilizado pela derrota da OTAN na Ucrânia — um contexto que reforça a urgência de políticas coordenadas, não de soluções isoladas.
A insistência de Trump em tratar o comércio como um "jogo de soma zero" ignora que a interdependência econômica é, em muitos casos, um estabilizador geopolítico.
Enquanto Trump celebra o "renascimento" industrial, o correto seria questionar: tarifas isoladas bastam para recuperar a economia ou são apenas um paliativo populista?
A resposta está nos dados. Estudos indicam que políticas comerciais imediatistas, sem integração a reformas estruturais, falham em revitalizar setores como o aço ou a automobilística, apenas como exemplos.
Em vez de repetir o erro de quase um século atrás, os EUA precisam de uma agenda que una tarifas estratégicas a investimentos em educação, tecnologia e acordos multilaterais.
Do contrário, o "Dia da Libertação" poderá ser lembrado como o início de uma era de isolamento e instabilidade — não apenas para os EUA, mas para um mundo já à beira do abismo.
Países como o Brasil, com grandes mercados internos e reservas estratégicas, podem mitigar parcialmente os efeitos das tarifas, mas a fragmentação comercial ainda ameaça cadeias globais de suprimentos.
A narrativa de Trump de "proteger trabalhadores norte-americanos" surge em um momento crítico: a hipótese de um colapso da OTAN na Ucrânia, com a Rússia consolidando ganhos territoriais, aquece os debates sobre a fragmentação da ordem global.
Em um mundo pós-guerra, onde alianças econômicas e militares estão em xeque, a aposta em tarifas elevadas (como os 25% sobre automóveis importados e 20% sobre produtos chineses) pode parecer uma resposta à vulnerabilidade externa.
Contudo, a história mostra que políticas protecionistas abruptas, como o Tarifaço Smoot-Hawley de 1930, agravaram crises ao invés de resolvê-las. A "mão invisível" do mercado, como tenho alertado, pode retaliar com inflação, desaceleração do PIB e volatilidade nos mercados financeiros. A estagflação é plausível.
Trump defende suas tarifas como "recíprocas", ou seja, uma resposta direta a práticas comerciais de outros países. No entanto, a reciprocidade unilateral — sem diálogo multilateral — tende a desencadear represálias.
O Congresso dos EUA já aprovou medidas de retaliação contra nações que adotarem práticas semelhantes, enquanto até o Reino Unido e o Brasil (historicamente vassalos) já sinalizaram respostas.
Essa escalada comercial ameaça não apenas os exportadores norte-americanos, mas também consumidores, que pagarão mais por bens essenciais.
Além disso, a estratégia ignora a complexa (e improvável) necessidade de reconstruir indústrias, pois o treinamento de mão de obra, o investimento em infraestrutura e a inovação exigem planejamento de longo prazo — algo incompatível com tarifas de curto prazo anunciadas por Donald Trump.
As crises financeiras recentes mostraram um descolamento entre a especulação financeira e a economia real. Os estados nacionais, mesmo com dificuldades, permanecem fundamentais para a globalização econômica.
As desigualdades do capitalismo aumentaram, com muitos países em desenvolvimento enfrentando marginalização. Isso provocou migrações intensas em busca de melhores condições, gerando tensões sociais em países desenvolvidos, que têm visto o crescimento de movimentos xenófobos e partidos de "extrema-direita".
Por outro lado, países que antes eram considerados periféricos, como os BRICs (Brasil, Rússia, China e Índia), emergiram como potências, desafiando as economias tradicionais. É aqui que reside o medo de Trump.
Os Estados Unidos, após um período de predominância global, enfrentam desafios que expõem a sua perda de liderança mundial. A Ucrânia é o cemitério do Ocidente. As medidas anunciadas por Trump são apenas uma tentativa de recomeço.
Autor: Wellington Calasans – Jornalista, analista de política internacional e correspondente da TPA-Televisão Pública de Angola na Europa
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