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O tamanho da derrota
Publicado em 06/03/2025 15:26
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Os políticos europeus que apostaram tudo na guerra da Ucrânia, na cauda dos EUA, entraram em completo desnorte com a viragem personificada por Donald Trump. Chefes de governo e comentadores de serviço insinuam que uma espécie de loucura atinge a nova administração norte-americana, não excluindo alguns – entre os mais apatetados, claro – a hipótese desesperada de Trump ser um agente de Putin…

É compreensível o desnorte. Então, nós – que nos mostrámos fiéis seguidores dos planos de Biden, que acreditámos na derrota da Rússia mais dia menos dia, que aceitámos pagar a energia três vezes mais cara, que afundámos as nossas economias e arriscámos a fúria dos eleitores, que vimos o Nord Stream ser estilhaçado, que nos sujeitámos a pagar mais para a NATO, que confiámos na asa protectora dos EUA – somos agora tratados como inúteis pela nova gerência de Washington?!

Espantada, a clique dirigente europeia, especialmente a de Bruxelas, é levada a acreditar que se trata de um interregno de quatro anos, valendo talvez a pena fazer finca-pé ao desbocado Trump na esperança de que uma outra equipa Biden II volte a pôr o comboio nos carris – ou seja, prosseguir a via da guerra eterna, as long as it takes.

O imperialismo perdeu a guerra

A viragem nos EUA, obviamente, não se deve a nenhuma loucura pessoal, pela razão simples de que a política de uma potência imperialista como os EUA não muda sem que novos dados objectivos muito fortes a tal obriguem. A nova equipa dirigente dos EUA expressa a posição dos sectores das classes dominantes norte-americanas de que é preciso salvar o imperialismo do beco em que se meteu. O beco é a guerra na Ucrânia – a que se juntam a dívida colossal que o Estado acumula sem cessar, as ameaças que pairam sobre a hegemonia do dólar, a perda contínua de influência um pouco por todo o mundo, tendências estas que a guerra acelerou em vez de travar.

Tudo se torna mais simples de entender se admitirmos o seguinte: o imperialismo perdeu a guerra na Ucrânia. Todos os propósitos amplamente anunciados pela equipa de Biden que a Europa seguiu cegamente – desgastar militarmente a Rússia, arruiná-la economicamente, isolá-la do resto do mundo, derrubar o regime para abrir portas a uma segunda era Ieltsin –  fracassaram.

Nenhum destes alvos foi atingido. Mas mais do que isso. Foram os EUA e a Europa que acabaram derrotados militarmente a ponto de se colocar hoje em causa a existência da NATO. O descalabro económico atinge sobretudo a Europa, mas também os EUA, a braços com uma dívida colossal que assusta a própria elite norte-americana. Foi o Ocidente que ficou isolado, na medida em que se reforçaram os laços de colaboração e as alianças entre a Rússia e a China e o chamado Sul Global. O poder do regime russo saiu reforçado internamente e as miragens de dividir a Rússia em talhões caiu por terra, ao mesmo tempo que a União Europeia se desfaz e os EUA se dividem ao meio em facções inconciliáveis.

Mudança de estratégia

É o reconhecimento íntimo deste fracasso, apesar das farroncas dos agentes políticos, que leva os líderes norte-americanos a mudar de estratégia. O seu fito é retirar, quanto antes, os EUA do atoleiro em que a política de confronto com a Rússia os meteu. Trump quer pôr termo à guerra enquanto pode evitar males maiores. Não por qualquer desejo de paz e concórdia, mas porque o prolongar do conflito só dará à Rússia, à China e aos BRICS maiores vantagens do que já conseguiram e, em reverso, limitará as escolhas políticas do imperialismo. 

A reviravolta súbita a que o governo de Trump teve de meter mãos resulta da percepção – por parte de um bloco maioritário da elite política e da oligarquia económica norte-americana – de que se a situação hoje é má, amanhã pode ser desesperada. Vistas as coisas no seu contorno geral, o imperialismo norte-americano ensaia com Trump a retirada de uma frente de combate irremediavelmente perdida no propósito de poupar forças e reorientar objectivos.

A jogada, porém, tem todo o ar de ser tardia. A viragem estratégica que, desde Obama, foi programada pelo imperialismo de deslocar atenções e meios para o Extremo Oriente no propósito de conter a China, está comprometida. O plano de derrotar a Rússia para depois mais facilmente derrotar a China, fracassou em toda a linha: a Rússia saiu vencedora da contenda, a China não parou de reforçar a sua capacidade económica, tecnológica e militar, os laços de cooperação entre uma e outra consolidaram-se e ambas alargaram apoios no mundo dos países periféricos. 

Com que forças, com que aliados, com que políticas vão os EUA derrotar essa frente que se vai forjando na hostilidade ao imperialismo? É este o centro das preocupações  norte-americanas actuais.

Europeus atónitos

Porque não mostram os europeus reconhecer a derrota que os EUA já estão a tentar digerir? 

Para os norte-americanos, é fácil operar a reviravolta porque podem dizer, muito “democraticamente”, que Trump nada tem a ver com a política da administração Biden. 

(Não o mesmo a respeito do massacre na Palestina, em que Trump prossegue sem rebuço a política de Biden, o que mostra bem a duplicidade da manobra do imperialismo: retirar da derrotada Ucrânia, prosseguir a ofensiva no Médio Oriente onde calcula poder obter ganhos.)

Para os dirigentes europeus o caso é diferente. Todos eles (os que alinharam com Biden) se comprometeram com a guerra até ao fim, empenharam-se em forjar uma opinião pública de cérebro bem lavado para a qual a guerra fosse uma necessidade inquestionável, impuseram às populações sacrifícios materiais de monta, baniram órgãos de informação porque eram “do inimigo”, acusaram de traição e de “putinismo” os que não aceitaram a via da guerra, chamaram “cavalos de Tróia” aos países que recusaram ir a reboque. Depois disto, virar o disco significaria perderem a máscara e criarem condições para serem apeados do poder. 

Sem excluir uma grande dose de oportunismo, de cegueira e de estupidez em tudo isto, há contudo algo de mais substancial que molda as atitudes das cliques dirigentes europeias. 

Alteração nas relações imperialistas

Um primeiro factor está na alteração da relação entre os EUA e a Europa no seio da tríade imperialista (EUA, Europa, Japão) constituída na sequência da segunda grande guerra. Na nova via ensaiada pelo imperialismo norte-americano, a Europa não pode ser um concorrente dos EUA – nisto, Trump iguala de novo Biden. A Europa terá de ser um subordinado sem vontade própria, que sirva  sem qualquer objecção os desígnios dos EUA. A hegemonia passa a ditadura, os aliados passam a servos. 

Qualquer esboço de união entre países da Europa não serve este propósito. A Europa tem de ser um mero somatório de países domáveis cujo poder político e cujos capitais não possam competir com os dos EUA. O convite dos governantes norte-americanos a que as empresas europeias se desloquem para os EUA e o apoio aberto às forças políticas de extrema-direita contra os poderes instalados na Alemanha, em França e no Reino Unido não deixam dúvidas.

As ambições do grande capital europeu de se constituir como uma potência com alguma vontade própria – que foi a mola que do lado europeu impulsionou a União – estão votados ao fracasso diante dos novos planos do imperialismo norte-americano. Exemplo 1: os recursos naturais ucranianos, minerais ou agrícolas, a que a UE ambicionava deitar mão ficam em causa diante do protectorado exclusivo que os EUA querem exercer sobre o que resta da Ucrânia. Exemplo 2: o maná da reconstrução da Ucrânia devastada pode não lhe caber em sorte diante da gula dos monopólios norte-americanos. Exemplo 3: a ofensiva genocida israelo-americana no Médio Oriente deixa os europeus fora de qualquer ganho político ou material. 

O falência da UE

Um segundo factor está no fracasso político da UE. A união política revela-se de dia para dia como uma casca vazia, alimentada e mantida pelas grandes potências e gerida por uma burocracia alheia às reais necessidades dos povos europeus. O alinhamento na guerra, e sobretudo a noção de que ela a partir de dada altura estava perdida, causou sérias divisões que paralisaram a acção das instituições comunitárias e acentuaram a desconfiança entre países membros. A ausência de uma política externa unificada é espelho da incapacidade da UE se afirmar como uma potência à medida das ambições do seu capital.

A insistência dos principais dirigentes europeus ainda no poder (agora com a colaboração prestimosa dos trânsfugas britânicos!) em alimentar a ficção do perigo russo tem todos os traços do velho pretexto do “inimigo externo”. Com isso, a UE pretende conseguir manter entre os estados membros um gregarismo de rebanho que não consegue com argumentos de validade política.

Um terceiro factor está na decadência económica da UE, que acompanha, de resto, a decadência geral do Ocidente imperialista. A crise económica desencadeada em 2008 seguida da crise epidémica de 2020 não tiveram recuperação plena. A Europa recuou face aos EUA, e ambos perdem diante do progresso das potências emergentes. Uma vez mais, a guerra funcionou como um catalizador: a política de sanções à Rússia acelerou o declínio europeu, atingindo gravemente as suas maiores potências económicas e fazendo da UE um projecto à beira da falência. 

Os planos de “reindustrialização” gizados pelas cúpulas europeias dando primazia à indústria militar são uma resposta desesperada ao marasmo económico que se arrasta. Também aqui a tese do “inimigo externo” e a eternização do clima de guerra (ou da “mentalidade de guerra”, na expressão, com ressonâncias nazis, do secretário-geral da NATO) são argumentos meramente instrumentais. As classes dominantes europeias precisam de convencer as populações de que há um perigo de morte ao virar da esquina para lhes poder extorquir os milhões necessários para uma corrida aos armamentos – sabendo todos nós que tais milhões virão inevitavelmente dos salários, das pensões e dos apoio sociais.

Garantias”, reclama a Europa 

A pressa do governo de Trump em terminar a guerra não convém à desprevenida Europa, que se sente posta de lado.

O facto de Trump ter optado por conversações directas com os dirigentes russos traduz o reconhecimento de que o confronto na Ucrânia sempre foi, desde a origem, uma disputa entre os EUA e a Rússia para a qual a Europa foi mobilizada como mero auxiliar. Nada garante que o entendimento que saia das negociações – tanto a respeito da Ucrânia, como a respeito de outras questões bilaterais tocantes a um novo equilíbrio entre potências – leve em conta os interesses europeus.

A inusitada coligação da UE com o Reino Unido e outros para fazer frente a Trump, a pretexto de conseguir uma paz “justa e duradoura”, não é mais do que um regateio, da parte dos seguidores de Biden, para ver se conseguem ter voz activa nas mudanças que se preparam.

As “garantias de segurança”, agora tão reclamadas pelos dirigentes europeus para se contraporem aos planos de Trump, são apresentadas como sendo garantias de segurança militar, a dar pelos EUA, contra uma suposta ameaça russa (em que ninguém verdadeiramente acredita). Mas essas “garantias” têm um segundo sentido, diplomaticamente escondido, que vai além da faceta militar. O que a Europa pretende, usando uma vez mais Zelensky e os ucranianos como instrumentos, é a garantia de que os EUA aceitam continuar a partilhar com o capital europeu os benefícios de que este tem gozado por todo o mundo por ter sido até à data o fiel parceiro do imperialismo – na África, no Médio Oriente, na América Latina. Uma vez mais, nenhuma consideração pela Ucrânia ou pelos povos europeus está aqui em jogo.

Os custos de uma economia de guerra

Este regateio europeu seria risível se não pusesse em jogo o bem-estar e a vida de milhões de europeus, incluindo ucranianos e russos. Mas é precisamente com as condições de vida e com as próprias vidas europeias – primeiramente as dos trabalhadores, como sucede sempre nestes casos – que os dirigentes europeus jogam sem pudor. 

As despesas militares colossais que programam (800 mil milhões de euros, segundo proposta apresentada por Ursula von der Leyen), a insistência no envio de tropas para a Ucrânia, a reintrodução do serviço militar obrigatório não passam de tentativas de dar músculo aos monopólios europeus. 

Os trabalhadores e os povos europeus, arrastados contra vontade para a guerra, desgastados por três anos de morticínio, empobrecidos pelo descalabro económico, têm pela frente um novo desafio: sabotar os planos europeus de constituir, à sua custa, uma criminosa economia de guerra.



Fonte: https://www.jornalmudardevida.net/2025/03/04/o-tamanho-da-derrota/




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