Por Freddy Ordóñez Gómez
José Carlos Mariátegui, “o primeiro marxista da América” 1, dedicou parte da sua prolífica obra ao estudo do fascismo em Itália após a Primeira Guerra Mundial. Nasceu em Moquegua, no Peru, a 14 de junho de 1894 e faleceu em Lima a 16 de abril de 1930. Em 1920 chegou a Itália, naquela que foi uma deportação eufemística do governo peruano pelo seu ativismo político, onde residiria até 1922, tendo a oportunidade de conversar com personalidades socialistas, participar em eventos da classe trabalhadora, como o congresso de fundação do Partido Comunista de Itália, e observar o desenvolvimento do fascismo naquele país. Foi durante a sua estadia em Itália que Mariátegui se tornou marxista.
Este ano de 2025 assinalam-se 95 anos da sua morte, e o seu pensamento, definido por Martín Bergel como socialismo cosmopolita 2 e descrito por Miguel Mazzeo como um conjunto de elementos do socialismo prático 3, continua atual e relevante nesta época 4. O seu legado é essencial para enfrentar os desafios, novos e persistentes, que a esquerda, na sua heterogeneidade, enfrenta nos cenários local e global. Como afirmam Jaime Ortega e Carlos Segura, é necessário “repensar os nossos debates políticos actuais à luz das discussões ainda abertas que evocam o passado não como arqueologia, mas como tradição activa” 5. Um desses desafios fundamentais que podemos repensar a partir de Mariátegui é o ressurgimento do fascismo e os debates que atualmente suscita.
Este texto apresenta uma síntese das abordagens de Mariátegui sobre o fascismo, abordando os principais elementos apresentados pelo autor nos artigos que tratam centralmente o fascismo italiano, os quais estão incluídos principalmente no seu livro A Cena Contemporânea (publicado em 1925), que reúne cinco escritos do Amauta, como parte da sua interpretação do período 6. Foram ainda consultadas algumas obras compiladas em Cartas de Itália 7, livro que faz parte da sua obra completa.
O fascismo identificou-se inicialmente, sublinha Mariátegui, como um movimento, reunia uma diversidade de categorias sociais e a sua liderança provinha de um amplo espectro político (dissidentes do socialismo, ex-combatentes, escritores futuristas, ex-anarquistas, sindicalistas, republicanos, fiumanistas, monárquicos ortodoxos, etc.), o que evidenciava uma confusão ideológica que se encobria sob a bandeira da pátria, monopolizando o patriotismo no cenário do pós-guerra, com o discurso nacionalista a encontrar espaço sobretudo na classe média. Foi a burguesia, diz o Amauta, que “armou, abasteceu e avidamente encorajou o fascismo” e acrescenta, “empurrou-o para a perseguição truculenta do socialismo, para a destruição dos sindicatos e das cooperativas revolucionárias, para a quebra das greves e das insurreições”, para o uso do “revólver, do bastão e do óleo de rícino” contra o proletariado socialista. Assim, tornou-se uma milícia civil anti-revolucionária mais eficaz contra os revolucionários do que o Estado, um aparelho que inicialmente viu nele um aliado, como um movimento da classe que o queria preservar, com a reacção fascista a conseguir tomar o poder com Mussolini para formar um Estado cobrador de impostos e gendarme.
Para o Duce, indica Mariátegui, o fascismo não é um conceito, mas uma emoção, pelo que os seus discursos não eram elaborações teóricas, mas apaixonadas, e havia um fenómeno político sem programa, apenas com um plano de acção. Não era socialista apesar de ter sido militante do partido socialista, era um extremista, que cora do seu passado, que optou pelo “mais extremo conservadorismo” não por exercício intelectual, mas por irracionalidade, apelando aos sentimentos e às emoções, pois “nunca foi cerebral”. Nesta ordem, Mussolini não é o criador ou arquitecto conceptual e ideológico do fascismo, mas o seu animador, o seu líder, o seu duce maximus, que atraiu para o seu fasci di combattimento uma classe média exaltada pelos mitos patrióticos (principalmente os do escritor, poeta e dramaturgo Gabriele D’Annunzio) e hostil à classe proletária, à revolução e ao socialismo.
Para além do acima exposto, Mariátegui situa as origens do fascismo na guerra contra a Áustria: "o fascismo foi uma emanação da guerra", e refere ainda como a tomada de Fiume em 1919, liderada por D'Annunzio, foi irmã gémea do fascismo, tendo o fiumanismo sucumbido ao fascismo, que tomou o seu lugar na luta de classes contra os trabalhadores. Assim, o fascismo recrutou e concentrou todos os elementos reaccionários e conservadores, retirando a D’Annunzio o gesto, a pose e o sotaque, para não parecer brutal e desprovido de princípios, criando assim um idílio entre a intelectualidade e a violência, que terminou porque o fascismo precisa do bastão e pode prescindir da arte e da literatura. Tal não aconteceu como consequência da renúncia ao fascismo pela artocracia, foi a burguesia que mudou a sua atitude em relação ao regime, daí Amauta realçar que "A inteligência é essencialmente oportunista: O papel dos intelectuais na história é, na realidade, muito modesto. Nem a arte nem a literatura, apesar da sua megalomania, dirigem a política; dependem disso, como de tantas outras atividades menos requintadas e menos ilustres. Os intelectuais constituem a clientela da ordem, da tradição, do poder, da força, etc., e, se necessário, do bastão e do óleo de rícino. Alguns espíritos superiores, algumas mentalidades criativas escapam a esta regra; mas são espíritos e mentalidades excepcionais.”
Por sua vez, só após a marcha sobre Roma e o início da ditadura é que o fascismo se propôs construir a sua ideologia e teoria, oscilando entre uma visão extremista e uma revisionista, com a primeira a impor-se à segunda, com tendências liberais e democráticas que, por medo da revolução socialista, se uniram e as apoiaram, abandonando o partido, deixando o fascismo novamente numa táctica de guerra, odiando ferozmente a democracia e o socialismo, sem os diferenciar. Desta forma, o fascismo sustenta-se na guerra, é aí que pode vencer; na paz não tem capacidade de ação, pois a sua configuração é mais de um exército do que de um partido: “É um exército contrarrevolucionário, mobilizado contra a revolução proletária, num momento de febre e belicosidade, pelos diversos grupos e classes conservadoras”, afirma Mariátegui, e o que espera o fascismo na paz é o desastre, a dissolução, a liquidação.
No fascismo existe uma amálgama não homogénea de tendências extremistas, reaccionárias e conservadoras, que clamam pela liquidação do regime parlamentar, deliram com o imperialismo, promovem o Estado fascista, juntamente com aqueles que simultaneamente o canalizam para a legalidade burocrática, e promovem um nacionalismo liberal de direita, estes últimos não são a maior representação do fascismo, mas sim os reaccionários. A burguesia, explica Mariátegui, saúda o fascismo como um salvador e aplaude “enquanto a reação se limita a decretar o ostracismo da Liberdade e a reprimir a Revolução”; Quando a reação começou a atacar os alicerces do seu poder e riqueza, sentiu “a necessidade urgente de demitir os seus bizarros defensores”. Desta forma, o liberalismo que a ele se vergava separou-se dele, mas esse isolamento não o enfraqueceu, mas tornou-o mais beligerante, combativo e intransigente, querendo configurar o Estado fascista, concentrado numa elite política e económica, concebida como um aparelho sem políticas sociais e redistributivas, com funções mínimas, principalmente políticas e jurídicas, para além de certas atividades associadas à indústria, e claro, militares e repressivas; e também fazer do fascismo uma religião. Isto faz com que a democracia liberal, que já não é um mito , seja incapaz de enfrentar o misticismo reaccionário dos fascistas, algo que só os comunistas podem alcançar, que têm e configuram um mito, a revolução.
Na sua obra, Mariátegui apresenta estes elementos para caracterizar a nossa época, na qual o patriotismo, o conservadorismo e a violência ganham acesso, sob configurações políticas, culturais e sociais fascistas, ao aparelho estatal de diferentes países, com perigosas implicações regionais e globais; e em que o fascismo social e civilizacional se volta a constituir como regime político, exigindo da esquerda, mais uma vez, o confronto com a reacção.
Notas:
1. MELIS, António (1980). Mariátegui, o primeiro marxista da América. In: J. Aricó (comp.). Cadernos do Passado e do Presente, 60. Mariátegui e as origens do marxismo latino-americano. México: Siglo XXI, pp. 201-225.
2. BERGEL, Martín (2021). José Carlos Mariátegui: um socialismo cosmopolita. In: J. Mariátegui. Antologia . Buenos Aires: Siglo XXI, pp. 11-37.
3. MAZZEO, Miguel (2017). José Carlos Mariátegui e o socialismo da Nossa América. Santiago: Quimantú; Tempo roubado.
4. Sobre a validade do pensamento de Mariátegui, ver, entre outros: MAZZEO, Op. Cit., pp. 23-39; ALIMONDA, Héctor (2010). Apresentação. A tarefa americana de José Carlos Mariátegui. In: J. Mariátegui. A tarefa americana . Buenos Aires: Clacso; Prometeu, pp. 11-28.
5. ORTEGA, Jaime; & SEGURA, Carlos (2024). Apresentação sobre “Mariátegui e a Revolução Latino-Americana”. O exercício de pensar, 55, p. 6.
6. Estes constituem a primeira secção do livro, intitulada Biologia do Fascismo , e inclui os artigos: Mussolini e o Fascismo; D'Annunzio e o fascismo; Inteligência e óleo de rícino; A teoria fascista; e Novos Aspectos da Batalha Fascista. A edição revista (Caracas: El perro y la rana, 2010) acrescenta o artigo Fascismo e monarquismo na Alemanha e apresenta um capítulo complementar intitulado Fascismo em Itália, ambos também revistos para este texto.
7. Obra publicada em 1969 pela editora Amauta, da qual foram consultados os artigos: As forças socialistas italianas; Cenas de guerra civil; Algo sobre o fascismo, o que é, o que quer, o que propõe? e Paz interna e “fascismo”.
Via: https://temposdecolera.blogs.sapo.pt/jose-carlos-mariategui-e-a-200408