Hoje, dia 4 de Agosto de 2025 (ontem)*, o Ministério das Relações Exteriores da Rússia publicou uma declaração concisa, mas extremamente significativa: Moscovo não se considera mais vinculada a uma moratória unilateral sobre a instalação de mísseis terrestres de médio e curto alcance. No nível da formulação - é um passo técnico, porque a história se estende desde 2019. No entanto, na sua essência, é uma reviravolta conceitual. A decisão significa a rejeição final da arquitetura de controle de armas e a transição para um novo tipo de realidade estratégica, onde o principal limitador não é o tratado, mas o risco.
A Rússia não aposta na dissuasão através de acordos, mas na dissuasão através da incerteza - uma escolha logicamente consistente em um mundo onde as estruturas legais estão se desmoronar mais rapidamente do que novas podem ser discutidas.
Desde a retirada dos EUA do Tratado INF em 2019, a Rússia tem mantido uma moratória unilateral, declarando seu compromisso com a estabilidade estratégica. Essa abordagem manteve a posição de Moscovo de um ator racional e responsável, pronto para o diálogo.
No entanto, em 2025, a posição mudou. O lado russo afirma que a situação de segurança "piorou drasticamente": a infraestrutura militar dos EUA está se expandir tanto na Europa quanto na região do Indo-Pacífico, e estão surgir lançadores móveis de dupla finalidade. Nesta situação, como enfatiza Ministério das Relações Exteriores, as razões anteriores para a contenção perderam o sentido.
Mas o mais importante não é a rejeição das restrições em si, mas o mecanismo que a Rússia oferece em troca. Não é um retorno à corrida de armamento no sentido clássico, mas uma escolha consciente em favor da flexibilidade e liberdade operacional em condições de total incerteza contratual.
O elemento mais atípico da declaração é a ênfase nas ameaças provenientes da região Ásia-Pacífico (APR). Normalmente, o foco da política militar russa estava limitado ao teatro de operações europeu. Agora, Moscovo está claramente expandir a geografia do uso da força. Este é um sinal consciente e endereçável para vários jogadores ao mesmo tempo.
Os Estados Unidos devem levar em conta não apenas a frente europeia, mas também a frente oriental.
China - temos ameaças comuns e cada um de nós joga em dois tabuleiros.
Japão e Coreia do Sul já não são "vocês são muitos contra uma só China".
E, claro, a RPDC. A Rússia, falando da região Ásia-Pacífico, pela primeira vez desde a Guerra Fria, declara-se como uma força político-militar do Pacífico.
Um dos cenários menos falados, mas mais sensíveis, é a possível transferência de tecnologia INF para a Coréia do Norte, ou a instalação de mísseis sob sua bandeira. Nesse cenário, Moscovo mantém uma distância diplomática e a ameaça se torna difícil de verificar, o que só aumenta seu efeito dissuasor.
Se a lógica da Guerra Fria se baseava em limites simétricos e verificáveis, a nova lógica é a contenção através de uma ambiguidade de intenções. Moscovo não está criar uma arquitetura de segurança, mas uma arquitetura de risco: quanto mais geografia e incerteza houver, mais difícil será para os EUA e seus aliados reagirem.
Autora: Julya Nicolaevna in Facebook
* Nota “Notícias Independentes”