O Ansarallah não irá recuar, encarando de frente o Império no Mar Vermelho
Por Pepe Escobar, no Brasil247
Não é de admirar que o Império Romano o chamasse de Arabia Felix.
São 3 da tarde na praça de Al-Sabeen, no bairro de Haddah, em Sana’a, na sexta-feira, 28 de março, Dia do Al Quds, no Ramadã, apenas dois dias antes do Eid al-Fikr, o fim do mês de jejum, e a multidão de mais de um milhão de iemenitas se espalha até o horizonte, brandamente cercada por montanhas nuas à distância, e com a grandiosa mesquita Al-Saleh enquadrando o primeiro plano.
O peregrino estrangeiro sobe até um pequeno palco, e após todas as suas peregrinações por todo o mundo e pelas terras do Islã, ele sabe que, por um fugaz momento, ele tem que agradecer à multidão – e a toda a nação – por ser tão nobre, tão correta, tão destemida, e por seus habitantes serem portadores de tanta clareza e propósito moral. Eles devem saber que toda a Maioria Global, instintivamente, os entende – e os apoia.
Não se trata apenas do apoio à Palestina, que eles há dezessete meses vêm ininterruptamente demonstrando nesta mesma vasta praça – como mostrado em toda a mídia social global – mas principalmente da força interna da Arabia Felix. Palestina Livre rima – e ecoa – eternamente com a Liberdade do Iêmen. Eles podem ser heróis não apenas por um dia – como Bowie, o Camaleão Ocidental os imortalizou: eles serão heróis para toda a posteridade.
Uma imersão de uma semana no Iêmen profundo é impossível de ser traduzida em meras palavras. Tive o privilégio de participar de um pequeno grupo – do Ocidente e Oriente – que de fato rompeu o bloqueio do Iêmen, como nossos gentis anfitriões não se cansaram de nos fazer lembrar. Originalmente, fomos convidados para participar de uma ampla conferência sobre a Palestina intitulada “Vocês não Estão Sós”.
O que nos atinge como um raio, logo de partida, é a ilimitada generosidade iemenita e seu charme ao mesmo tempo aristocrático e afável. Eles são o epítome do chic, e não apenas em termos de vestuário, mas também espiritualmente. Praticamente todas as noites desta última semana tentei transmitir essa mágica em diversos podcasts, como este, este e este. Tanto tratando-se das conversas com acadêmicos e diplomatas de primeira linha e com membros do primeiro escalão do Alto Conselho Político, o maior prazer propiciado pelo Iêmen são as famosas “trocas de pessoa a pessoa” – ao estilo de Xi Jinping – particularmente à noite, nos fascinantes souks de Saada, no noroeste, e na Cidade Velha de Sana’a.
Essa é a verdadeira alma da Arábia, seus segredos perfumando o ar como o incenso que um Purificador vestido de branco espalha por toda a mesquita de al-Kabir, na Cidade Velha. Homens cegos agachados na entrada da mesquita mascam qat, absorvidos em meditação. Essa mágica é o que o próprio Alá descreve no Livro Sagrado em vários versos e capítulos –generosidade concedida unicamente aos iemenitas.
A luta contra uma “coalizão” de vassalos dispostos - Em meio a uma cornucópia de reuniões e xícaras do melhor café do planeta, a um comboio de SUVs camuflados cortando a paisagem crua que se estende de Sana’a a Saada, a incessantes promessas de solidariedade à Palestina e a episódios de covardes bombardeios do CENTCOM – de diversos prédios civis e residenciais a um hospital do câncer em construção, em Saada – logo fica claro que o Iêmen está lutando mais um capítulo letal, agora contra o CENTCOM liderado pelo Trump 2.0, daquilo que é uma guerra que já dura dez anos, iniciada em 26 de março de 2015. Essa foi a primeira guerra em toda a História, como afirmou o magistral Undeterred: Yemen in the Face of Decisive Storm (Impávido: o Iêmen Frente a uma Tempestade Decisiva), de autoria do Professor Dr. Abdulaziz Saleh bin Habtoor – que tive a honra de conhecer em Sana’a – “na qual todos os países árabes ricos” (com a exceção de Omã) postaram-se “sob a égide do mais poderoso dos países imperialistas em uma coalizão profana contra o país mais pobre da Península Arábica”.
Uma típica “coalizão” de vassalos, liderada pela Arábia Saudita, e por algum tempo também pela UEA, com a gangue estadunidense de Obama-Biden “liderando pela retaguarda” e fornecendo armamentos juntamente com os britânicos, não apenas bombardeou indiscriminadamente o Iêmen, mas também impôs um bloqueio devastador no ar, mar e terra, impedindo a chegada de medicamentos, combustível e alimentos, provocando o deslocamento de pelo menos 2,4 milhões de pessoas e uma epidemia de cólera.
Não é de admirar que os arrivistas wahhabi da Arábia Saudita, com seu espalhafatoso mau-gosto, abominem o Iêmen. Guerra ao Iêmen por praticamente décadas, como o Prof. bin Habtoor afirmou em nossa reunião, vem sendo a Principal Arma do golpe perpetrado por uma família e planejado pelo Império Britânico na década de 1920 a fim de extrair a riqueza da Arábia.
É óbvio que ninguém do – agora fraturado – Ocidente Coletivo se lembra de que, mais tarde, o Iêmen se tornou a guerra do “Príncipe Herdeiro” MbS. A existência de seu regime – agora o queridinho do Trump 2.0 – foi, desde o início, condicionada à vitória nessa guerra, até que MbS foi forçado a se dar conta de que isso seria impossível: só em 2017, a guerra custou a ele mais de 300 bilhões. Ele tinha que aceitar um armistício.
Não há “vitória”: não contra esses heróis invencíveis.
O desmemoriado e fraturado Ocidente Coletivo também não se lembra de que a Britannia Rules the Waves foi forçada a render seu imaginário papel de dominatrix global aos americanos, depois de ter-se mostrado incapaz de controlar a resistência extremamente feroz – onde mais seria? – no Sul do Iêmen nos anos 1960.
Isso abriu caminho para a demência comandada pelos sauditas – embora o padrão tenha permanecido o mesmo: os iemenitas simplesmente não irão entregar as fabulosas riquezas naturais de sua pátria para subsidiar o Império do Caos, Mentiras e Saques com sua crônica necessidade de liquidez, de garantias para novas manipulações em dinheiro vivo e, principalmente, com as commodities que existem sob o fértil solo do Iêmen.
O que nos traz aos incessantes bombardeios hoje perpetrados pelo CENTCOM, destruindo prédios e infraestrutura civis (itálicos meus) de Sana’a a Saada e ao porto de Hodeidah – que não pudemos visitar porque os bombardeios são quase que diários. Por mais que insistíssemos com nossos interlocutores que estávamos preocupados com a fúria desencadeada pelo Império, eles invariavelmente respondiam com um sorriso: Nós ganharemos. Essa afirmação pode vir tanto de Yahya Saree, o porta-voz das Forças Armadas do Iêmen – que, desafiando riscos de segurança de todos os tipos nos visitou em nosso hotel – ou de um bacanérrimo motoqueiro de camelo no souk de Saada.
Ainda outras maldades são lançadas contra o Iêmen pela UEA, parceira privilegiada do Trump 2.0 em assuntos do Golfo Pérsico, que tem primazia sobre os ativos petrolíferos e acesso a grande parte da supremamente estratégica costa sul do Iêmen, investindo pesadamente na colonização da ilha de Socotra. E há também os procuradores ocasionais “não-oficiais” dos sauditas e dos emiradenses: a al-Qaeda na Península Arábica e o ISIS/Daesh – armas preferidas de algumas facções do Império do Caos, Mentiras e Saque.
Enquanto isso, o Ansarallah não irá recuar, encarando de frente o Império no Mar Vermelho: “Quando soldados dos Estados Unidos forem mortos no Mar Vermelho, o que eles dirão a seu povo e a suas famílias? Será que eles dirão que eles foram mortos pela libertação de seu país, ou que eles foram mortos para proteger os terroristas sionistas?”
Invencíveis.
Tradução de Patricia Zimbres
Brasil247, 04 de abril de 2025
https://www.brasil247.com/blog/uma-viagem-na-felix-arabia-o-invencivel-iemen